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Rodrigo Santoro interpretará João Carlos Martins em filme de Bruno Barreto
Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR
17/01/2011 | 13h47 | Cinema

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Algumas histórias de vida são tão extraordinárias que parecem roteiros de cinema. De fato, algumas até se transformam em filme algum dia, como a trajetória pessoal e artística do pianista e maestro João Carlos Martins, 70 anos, que depois de ser contada em um documentário alemão, vai se transformar em um longa dirigido por Bruno Barreto e protagonizado por Rodrigo Santoro. O artista, que perdeu o movimento das mãos, realiza um projeto de popularização da música clássica e de inclusão social por meio da formação musical de jovens carentes. Em bate-papo com o Correio, ele passeia pela política, da qual não guarda boas recordações, futebol (é torcedor fanático da Portuguesa de Desportos), e, claro, de música e de superação.

Filme e minissérie
O filme é de Bruno Barreto e será protagonizado por Rodrigo Santoro. Vai ser chamar João. Adorei o nome, é simples. O Bruno tinha até pensando num subtítulo, mas nem isso vai ter. Ele me falou que quando eles leram o roteiro, todo mundo começou a chorar. Uma cena eu já li: vai intercalar dois momentos importantes da minha trajetória: uma das minhas cirurgias e um concerto no dia do meu aniversário, em Londres. Vai retratar toda a minha vida e por isso escolheram um ator que pode me interpretar dos 20 anos até hoje. Deve começar a ser rodado em setembro. O Manoel Carlos me mandou um e-mail, dizendo que está propondo uma minissérie de quatro capítulos para a Rede Globo sobre a minha vida. E ainda tem a homenagem que a Vai-Vai fará pra mim, já que sou o enredo da escola de samba neste carnaval. Tem acontecido coisas muito fortes. A gente tocou na abertura do debate entre os candidatos a presidente, houve participações no último capítulo da novela Viver a vida e na final do Campeonato Paulista.

O pai
Em 1908, meu pai, com 10 anos, morava em Braga, Portugal, onde nasceu, e trabalhava como um escravo em uma gráfica de jornal. No caminho para o trabalho, ele parava sempre diante da janela para ver e ouvir uma aula de piano porque queria ser pianista. Aí a professora falou que daria aulas pra ele de graça. Três dias antes, ele teve parte da mão direita decepada na prensa da gráfica. Então, acho que acabei me tornando pianista para realizar um sonho do meu pai também. Quando éramos crianças, a gente lia capítulos de livros e fazia resumos para o meu pai corrigir. Ele colocava discos de 78 rotações, e a gente tinha de adivinhar o cantor; íamos aos museus e tínhamos de saber qual era o pintor de cada obra. Crescemos em um ambiente bem cultural.

Começo
Aos 6 anos, operei um tumor no pescoço e, como a cirurgia não foi bem feita e deixou marcas, ficava me escondendo dos amigos. Com 8 anos, meu pai comprou um piano e eu e meu irmão, José Eduardo, começamos a estudar. Eu, porque ficava em casa, tinha complexo. Comecei a estudar bastante. Fiz a segunda operação no pescoço e finalmente fiquei bom. Seis meses depois, participei de um concurso e ganhei, tocando obras de Bach. Então, começou aquela onda, tipo “ah, ele leva jeito” e com 13 comecei uma carreira nacional forte. O engraçado era que o Rio de Janeiro torcia para o Arthur Moreira Lima e São Paulo torcia pra mim. Era aquela disputa para ver quem era o menino prodígio.

Pedra no caminho
Com 18 anos, minha carreira internacional começou. Aos 20, a Eleanor Roosevelt (ex-primeira dama dos Estados Unidos) promoveu a minha estreia no Carnegie Hall (uma das principais salas de espetáculo de Nova York). Parecia a vida dos sonhos: correndo o mundo, tocando em tudo quanto é lugar. Com 26 anos, morando em Nova York, eu estava olhando o Central Park pela janela do meu apartamento e vi um pessoal jogando futebol. Desci correndo, já que aquilo não era muito comum nos anos 1960, ainda mais nos Estados Unidos. Eram jogadores da Portuguesa de Desportos, meu time do coração, que participariam de um torneio em Nova York. Nem acreditei. Eu me ofereci para jogar e fizeram uma festa. Durante o jogo, eu cai e uma pedra bateu no meu braço, rompendo um nervo. Quando cheguei em casa, percebi que três dedos da mão direita estavam meio bambos. Um dos maiores neurocirurgiões do mundo fez uma transposição de nervos, coloquei dedeiras de aço e continuei dando concertos. Dois anos depois, toquei no Lincoln Center, em Nova York. No dia seguinte, uma crítica do The New York Times dizia que eu não tinha mais nada a ver com o pianista de anos atrás. Liguei para o meu empresário e cancelei tudo. Falei que o crítico tinha razão porque música se faz com emoção e perfeccionismo e perfeccionismo eu não tinha mais.

Éder Jofre
Cancelei tudo e voltei para o Brasil. Comecei a estudar em uma faculdade, até que um dia, quatro anos após aquele acidente, encontrei com o Éder Jofre, nosso ex-campeão mundial de boxe. Eu disse: “Éder, você tem que recuperar o título mundial para o Brasil e se você quiser posso ser o seu empresário”.’ Aos 37 anos, ele achou que estava velho, mas acabou topando e começou a treinar. Um ano e meio depois, aqui em Brasília, na inauguração do Ginásio Nilson Nelson (21 de abril de 1973), foi realizada a luta pelo título mundial. Quando o juiz levantou o braço dele, eu pensei: “Sou um covarde, esse homem recuperou o título mundial e eu não tentei o piano.”

Recomeço
Passou um tempo e recomecei a estudar piano, mesmo sem estar com a mão 100%. O público não ia perceber se eu não utilizasse todos os dedos. Eu tinha uma velocidade muito grande na escala. Fazia 21 notas por segundo. Começamos tudo de novo, um monte de concertos e pedi para meu empresário marcar o Carnegie Hall. Já tinha passado seis anos de toda aquela história e ele me disse: “João, o público já te esqueceu e são 2,8 mil lugares”. No dia do concerto, vi uma muvuca de gente perto do auditório e perguntei ao taxista: “O que está acontecendo?”. Ele respondeu: “Não sei qual é o raio do artista que está tocando, mas isso está um caos”. Eu ri e falei que o artista era eu. O Carnegie Hall teve cadeiras extras e uma gravadora me convidou para gravar a obra completa de Bach. Novamente a vida dos sonhos: gravando e tocando em várias partes do mundo. Eu estava no meio da gravação e começo a notar movimentos involuntários: era a LER ( lesão por esforço repetitivo) e em estado avançado. Fiquei um bom tempo sem tocar, uns sete anos. Mas na LER, se você não exerce a função repetitiva, acaba recuperando o movimento original. Foi o que aconteceu e voltei a tocar novamente.

Assalto
Estava saindo de uma gravação em um teatro na Bulgária, às 23h30, combinando de jantar com os técnicos, e sofri um assalto violento com uma barra de ferro. Tive uma lesão cerebral. Fui me tratar nos Estados Unidos e passei oito meses tentando recuperar os movimentos do lado direito do corpo. Acabei me recuperando e um ano depois voltei a fazer concertos. Mas passei a observar que toda vez que eu falava, sentia muita dor. E essa dor foi só crescendo. Os médicos disseram que a lesão tinha afetado a minha fala e a solução era cortar o nervo, mas eu nunca mais poderia tocar piano com a mão direita. Eu disse que preferia conviver com a dor. Só que chegou um momento em que não suportei mais. Fiz um concerto e, no dia seguinte, cortei o nervo. A dor acabou, mas perdi a mão direita.

Regência
Após ter perdido a mão direita, decidi começar minha carreira tocando só com a esquerda. Toquei na Europa, Ásia. Um ano e meio depois, tive um tumor na mão esquerda, operei duas vezes e perdi o movimento da mão. Os médicos do Sírio Libanês disseram que não tinha mais jeito. Toda a minha família estava no quarto e eu pedi para ficar sozinho. Quando liguei a tevê, estava passando o filme Cinema Paradiso, que tem uma trilha maravilhosa, do Ennio Morricone. Nunca me esqueci daquele momento. Eu tinha 64 anos. Fiz uma revisão do meu passado e do meu presente e acabei dormindo. Foi quando tive um sonho com o maestro Eleazar de Carvalho: ele me aconselhava a estudar regência. No dia seguinte, às 7h, eu já estava tomando as primeiras aulas como regente e, de lá pra cá, foram mais de 700 concertos.

Superação na família
O meu pai, com 30 e poucos anos, teve um câncer violento. Tiraram 3/4 do estômago dele e deram-lhe seis meses de vida. Ele morreu com 102 anos de acidente e totalmente lúcido e saudável. Um dos meus irmãos teve, há quatro anos, um câncer violento, linfático. Ele venceu, superou, está com 72 anos e já participou de duas corridas de São Silvestre.

Momento emocionante
Na segunda vez que voltei a Nova York, já com a orquestra filarmônica, falei na coletiva que eu iria reger e tocar Mozart. Só com três dedos. E disse também que se tudo saísse bem, eu ia fazer o Hino Nacional em todos os ritmos do Brasil. E os brasileiros que moram nos Estados Unidos viram na Globo Internacional essa minha entrevista e me surpreenderam. Se eu contar um milhão de vezes essa história, é difícil. Sempre me emociono. Eles levaram para o Carnegie Hall a bandeira do Brasil. Quando terminou o Hino, vi as bandeiras e pensei: “Obrigado, Deus por estar fazendo música e por ser brasileiro”.

Política
Foi a maior desgraça da minha vida. (No começo dos anos 1990, João Carlos Martins foi envolvido no escândalo do Paubrasil, acusado de fazer arrecadação ilegal de recursos para a campanha de Paulo Maluf). Fui dar uma consultoria. Paulo Maluf me chamou para ser secretário de cultura e também fazer a campanha política dele. Naquela época, era proibido receber contribuições de pessoas jurídicas e eu já estava querendo fechar a firma para tentar voltar para a música. Foi a minha firma que fez a campanha dele. Fui salvo porque a minha secretária guardou os 17 mil documentos. Por isso, as consequências não foram piores. Mas foi o fim da minha vida, me abandonaram totalmente. Ganhei na Justiça, mas nunca mais a minha vida foi a mesma. Os acidentes com a mão, eu administrei, mas aqueles que atingiram a alma, a besteira política, desses nunca mais me recuperei.

Futebol
Sempre gostei de jogar e acompanhar também. Toda vez que posso, vou ao Canindé assistir aos jogos da Portuguesa. Tem gente que nem acredita que eu torço para a Lusa, mas é verdade. Eu gosto, sim. E esteja onde ela estiver, pode até jogar no campo de várzea, eu estarei lá

Por Ana Clara Brant, do Correio Braziliense







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