Uma câmera na mão e um cocar na cabeça

Quando a pequena Anna Flávia, de apenas 10 anos, ordena silêncio a plenos pulmões, parece que até os passarinhos da reserva indígena Xucuru obedecem ao imperativo. O grito da garota - que apesar da pouca idade já está investida da função de produtora do curta sobre seu avô Xicão Xucuru - um dos quatro documentários em curso na tribo como parte da formação em audiovisual que os jovens índios estão recebendo - é a senha para as gravações marcadas para aquela tarde comecem.
 

Zenaide, viúva do cacique Xicão - tema de um dos documentários
Foto: Roberto Cavalcanti/Especial
Antes do berro que ecoa pela vizinhança, o “zunzunzum” era grande na sala de dona Zenaide, viúva de Xicão e mãe não só do cacique Marquinhos, mas assim considerada por todo o povo Xucuru. Um media a luz, outro fazia os últimos ajustes no microfone, um grupo discutia sobre planos e enquadramentos no set de filmagens de um sábado ensolarado na reserva indígena. E assim tem sido em quase todos os fins de semana desde janeiro, quando começaram as oficinas para ensinar os jovens xucurus a fazerem cinema.
 
Naquela manhã, a movimentação começou cedo na Escola Indígena Natureza, na aldeia São José, espaço cedido pelos xucurus para a realização das oficinas. Enquanto os alunos chegavam, em meio a uma algazarra típica da idade, mulheres da tribo já começavam, em uma sala dos fundos, a preparar o almoço que seria servido a alunos e oficineiros. E só graças a esse clima de cooperação, é que a iniciação dos jovens na sétima arte está vingando. Para dizer o mínimo, basta a informação de que em Pesqueira não há salas de exibição. "Eles nunca tinham tido contato com a linguagem de documentário. A referência deles era basicamente a TV", lembra Hamilton Costa filho, coordenador do projeto. O primeiro desafio foi, portanto, desconstruir esse padrão de formatação que os participantes da oficina tinham em mente.


Trechos da gravação do curta-metragem sobre Xicão, produzido durante a oficina
Imagens: Juliana Aragão


O passo seguinte já partiu para a prática: aulas sobre como construir roteiros, lições sobre produção e direção para cinema, noções de luz e som e, enfim, um dos momentos mais esperados: o de botar a mão na massa - ou, no caso, na câmera. Mais algumas semanas e será a vez de aprender a editar e finalizar um filme e voilà: no dia 20 de maio, a exibição dos quatro curtas orgulhosamente produzidos pelos jovens xucurus serão o ponto alto da Assembléia dos Xucurus, encontro realizado anualmente pela tribo em que milhares de indígenas descem a pé até o centro de Pesqueira para relembrar suas lutas e reafirmar sua cultura.


Eliane Beserra fala sobre o roteiro do seu documentário sobre o povo Xucuru
Imagens: Juliana Aragão

Para os participantes das oficinas, no entanto, os motivos de comemoração começaram mais cedo este ano. Cheio de expectativa, o estudante Cristiano Jerônimo, 19, já vislumbra os que as oficinas vão proporcionar daqui para a frente. "A maioria dos pesqueirenses diz que o povo Xucuru é um povo que não tem cultura. Dizem que não somos índios. Esse curso vai mostrar para eles e para todo o Brasil que em Pernambuco existem índios e que temos cultura. Vamos contar a história do nosso povo", orgulha-se.


Cristiano Jerônimo mostra a importância do curso para a preservação da cultura indígena
Imagens: Juliana Aragão

A também estudante Maria Daysyane vai além. "O povo lá fora vai ter uma visão diferente do que acontece aqui dentro. Não vamos falar, vamos mostrar. E nossos filhos, nossos netos vão ver o que a gente fez e a forma melhor de continuar", sonha. O grupo de Daysyane escolheu como tema de seu curta documentário um resgate da história de Xicão Xucuru, uma das lideranças mais marcantes do seu povo. Os demais falam da religiosidade, das lutas e resistência do povo Xucuru e de Cimbres, uma das aldeias da reserva que acabou virando um dos santuários e locais de peregrinação mais famosos do estado.


Maria Daysyane conta sua experiência na produção do curta sobre Xicão
Imagens: Juliana Aragão