Edição de Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2003
 

Início Diario de Pernambuco Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos A Escravidão no Brasil Holandês

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Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

A Escravidão no Brasil Holandês

Leonardo Dantas Silva
Especial para o DIARIO

No Brasil Holandês toda a economia açucareira de Pernambuco tinha por força motriz o braço escravo, sendo necessário à importação anual de cerca de 4.000 negros dos diversos portos da África.

Por essa época não somente as Américas, mas toda a Europa se entregara ao comércio de escravos da Costa da África. Nenhuma grande nação européia está isenta da mancha da escravidão, no dizer de Augustin Cochin,1 estendendo-se esta situação até os fins do século XVIII, às vésperas da Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1793).

Em suas colônias, na América, na África e no Oriente, a Holanda manteve o regime da escravidão negra até a segunda metade do século XIX.

Quando da dominação holandesa, ocorrida em Pernambuco entre 1630 e 1654, a importação de negros da costa da África passou a ser monopólio exercido pela Companhia das Índias Ocidentais.

Os holandeses, a exemplo dos franceses e ingleses, já em 1612, eram grandes comerciantes de escravos, com feitorias instaladas na Guiné e em Mouree, onde levantaram o forte Nassau, permanecendo como aquele comércio até 1872, quando aquela praça veio a ser tomada pelos ingleses. Os pastores da Igreja Reformada, a exemplo da Igreja Católica Romana, nunca tomaram qualquer posição contrária à escravidão dos de raça negra e, em que pesem as sucessivas recomendações do conselho eclesiástico, nunca se importaram com a instrução dos escravos nos ensinamentos da religião cristã.2

Em 1638 não se punha mais resistência à escravidão de negros; o Conselho Eclesiástico ao pretender educar os escravos na religião reformada, achou dispensável ñcogitar-se atualmente se é lícito a um cristão comprar e vender negros para escravizá-losá. E no mesmo ano já se diz: ñsem escravo não é possível fazer alguma coisa no Brasil... e por nenhum modo podem ser dispensados: se alguém sentir-se nisto agravado, será um escrúpulo inútil.

Logo ao chegar ao Brasil, em 1637, o Conde de Nassau procurou dar maior suporte ao comércio de escravos, conquistando as fortalezas de São Jorge da Mina (1637) e São Paulo de Luanda (1641), em Angola. Naqueles centros eram os negros adquiridos na maioria das vezes através de troca de gêneros e utensílios diversos. Segundo Hermann Waetjen, in Der Negerhandel in Westindien und Suedamerika, citado por José Antônio Gonsalves de Mello, os negros eram comprados na Guiné por quantias que variavam entre 12 e 75 florins e em Angola entre 38 e 55 florins, sendo vendidos no Brasil por 200 a 300 florins por peça alguns por vezes alcançavam o dobro desses preços ; acrescentando ainda, o autor de Tempo dos Flamengos, uma informação deveras curiosa:

Os negros eram adquiridos, também, por meio de ñcerto buziozinhoá que tinha valor de dinheiro em Angola, onde eram chamados de ñsumbaá (talvez o que os negros de Pernambuco chamam de ñofásá): carta do Conselho dos XIX ao Conde e Supremo Conselho, datada de Amsterdã, 4 de abril de 1640.3

Segundo a mesma fonte, as precárias condições de higiene, espaço (navios com o triplo de sua capacidade de lotação), de alimentação (faltava a água e a comida necessárias às longas travessias), transformavam os barcos usados no tráfico "em verdadeiros túmulos de pobres negros", citando carta datada de 12 de junho de 1643, escrita no Recife e endereçada ao conselho dos XIX da Companhia das Índias Ocidentais, em Amsterdã, em que dos 554 negros embarcados no de Regenboge, faleceram 172 e dos 350 embarcados no Bruynyis, 109 faleceram.

A mortalidade dos negros trazidos como escravos da África pelos holandeses chegou a preocupar o conde João Maurício de Nassau que, segundo a mesma fonte, assinala no seu Relatório aos Estados Gerais (1644):

Vejo pelos registros, que embarcaram para o Brasil 6.468 escravos, no período de 7 de fevereiro de 1642 a 23 de julho de 1643, dos quais 1.524 faleceram; aproximadamente uma quarta parte dos embarcados. Resultado das más acomodações e da falta que se deve considerar indispensável.4

Segundo Watjen, o número de negros importados entre 1636 e 1645, pela Companhia das Índias Ocidentais, que detinha o monopólio desse comércio e tinha nele uma de suas maiores rendas, foi da ordem de 23.163 indivíduos.

Diante de tais estatísticas, Roberto C. Simonsen faz o seguinte comentário:

A produção total do açúcar no século XVII está computada em 180 milhões de arrobas. Admitindo-se uma produção média de 50 arrobas por escravo, o que não é muito para terras novas, e um desgaste tal que limite a sete anos a vida efetiva do escravo, concluiremos que o século XVII absorveu, na produção açucareira, 520 mil escravos. Desses teriam sido importados do continente africano no máximo 350 mil. Durante a ocupação, os holandeses, em dez anos, importaram cerca de 23 mil escravos e avaliavam, em 1637, em quatro mil escravos anuais as exigências da colônia (Varnhagen). [...] O total do volume de açúcar exportado de 1700 a 1850 alcançaria, no máximo, 450 milhões de arrobas. Pelo critério adotado acima, verificaremos que seria necessário para sua produção, na pior das hipóteses, 1.300.000 escravos. Não será exagerado calcular-se que uma quarta parte teria sido produzida pelo braço indígena e por escravos já nascidos no Brasil [crioulo]. Chegaremos assim a 1 milhão de escravos, importados no período de 1700 a 1850; estimando-se o período de 1600 a 1850, o número de escravos importados para agroindústria do açúcar seria de 1.350.000.5

Tomando-se por base que o custo médio de um escravo encontra-se estimado entre 20 e 30 libras esterlinas, podendo em algumas ocasiões atingir o valor de 100 libras esterlinas, é possível montar uma equação entre o preço do negro e a produção dos engenhos. Segundo a mesma fonte, essa importação de mão-de-obra escrava teve um custo estimado em 40,9 milhões de libras esterlinas, para uma produção açucareira de 400 milhões de libras esterlinas, no período de 1600 a 1850.

Temos assim a verdadeira africanização do Brasil, herança que nos foi imposta por Portugal, que, no dizer de Joaquim Nabuco, "é uma nódoa que a mãe pátria imprimiu na sua própria face, na sua língua, na única obra nacional verdadeiramente duradoura que conseguiu fundar".








 

 
 
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