Edição de Segunda-Feira, 22 de Setembro de 2003
 

Início Diario de Pernambuco Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos Escravidão: o açúcar amargo

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Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

Escravidão: o açúcar amargo

Era o engenho uma espécie de povoação rural, a exemplo da usina de açúcar dos dias atuais, que congregava não somente escravos mas artesãos dos mais diversos misteres, lavradores de canas vizinhos, moradores livres, agregados da casa-grande, padres e familiares do senhor-de-engenho, que vieram a tornar-se, no dizer de Stuart Schwartz, "espelhos e metáfora da sociedade brasileira".

Assinala Antonil (1711) servirem ao senhor-de-engenho, "além dos escravos de enxada e foice que tem nas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e mulatas, negros e negras de casa ou ocupados em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carapinhas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores. Tem mais cada senhor destes necessariamente um mestre-de-açúcar, um banqueiro e um contra-banqueiro, um purgador, um caixeiro no engenho e outro na cidade, feitores nos partidos e roças, um feitor mor de engenho, para espiritual um sacerdote seu capelão, e cada qual destes oficiais tem soldada".6

O que representava um total de 150 a 200 escravos.

Ainda a mesma fonte observa serem os escravos conhecidos pelo nome de suas tribos ou dos portos de origem na costa da África:

Ardas, Minas, Congos, de São Tomé, de Angola, de Cabo Verde, e alguns de Moçambique, que vêm nas naus da Índia. Os Ardas e os Minas são robustos. Os de Cabo Verde e de São Tomé são mais fracos. Os de Angola, criados em Luanda, são mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes já nomeadas. Entre os Congos há também alguns bastantemente industriosos e bons, não somente pare o serviço da cana mas para as oficinas e pare o meneio da casa.Os mulatos são "soberbos e viciosos", metidos a valentes. Levam no Brasil sorte melhor que os negros, a parte de sangue branco atenua a ira dos senhores, talvez até seus filhos.

Daí se dizer na época que era o Brasil o "Inferno dos negros, Purgatório dos brancos, e Paraíso dos mulatos e mulatas".

Comenta com muita propriedade o historiador Alberto Vieira que "a cana de açúcar é de todas as plantas domesticadas peloHomem a que mais implicações teve na História da Humanidade. [...] A chegada ao Atlântico, no século XV provocou o maior fenômeno migratório que foi a escravatura de milhões de africanos e teve repercussões evidentes na cultura literária, musical e lúdica".7

A escravatura tem suas origens com a própria humanidade: desde os tempos bíblicos, descritos no livro do Gênesis, os vencidos eram tornados à condição de escravos, em troca de suas vidas. A escravidão era dessa forma, vista como um gesto "humanitário", chegando a fazer parte de todos os grandes códigos da antigüidade, como o de Hamurabi, com especial enfoque no Direito Romano e nas Ordenações do Reino, que serviram de norma escrita ao mundo português até o século XIX.

No mundo português ela surge a partir de 1441, depois que Antão Gonçalves e Nunes Tristão capturaram os azenegues do Rio do Ouro, a serviço do Infante D. Henrique de Portugal. A partir de então, as expedições portuguesas e espanholas transformaram-se em verdadeiras empresas, com objetivo deincrementar o comércio escravo, fixando na Costa da África várias feitorias, especialmente na região do Cabo Branco, estabelecendo-se posteriormente na ilha de Arguim (1448) e no Senegal (1460), com a finalidade de adquirir prisioneiros de tribos africanas, para transformá-los em escravos.

Na estimativa de Vitorino Magalhães Godinho,8 citado por José Ramos Tinhorão, foram importados como escravos berberes, árabes e negros africanos, entre 1448 e 1505, de 136.000 a 151.000 indivíduos.9

Em Portugal, foram os escravos, inicialmente, destinados aos serviços domésticos e logo em seguida passaram a ser usados na florescente lavoura da cana-de-açúcar nas ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde.

Na América, a escravidão foi introduzida pelos espanhóis com os descobrimentos, havendo indícios de que nas naus comandadas por Cristóvão Colombo, em 1492, já houvesse escravo; 10 com regularidade, porém, a importação de negros só foi introduzida pelos espanhóis, a partir de 1501, em São Domingos. No Brasil, se comprova a existência de escravos a partir de 1531, na Capitania de São Vicente.

Em Pernambuco, em carta escrita em 1539, dirigida ao rei D. João III, o donatário Duarte Coelho Pereira solicita autorização para a importação direta da costa da Guiné de 24 negros, a cada ano, quantidade que seria aumentadapor D. Catarina, em 1559, para 120, mediante o pagamento de uma taxa reduzida, nada impedindo que outros negros aqui chegassem por outros caminhos. No testemunho dos jesuítas Antônio Pires (carta de 4 de junho de 1552) e José Anchieta (1548), era comum a existência de escravos negros e índios em Pernambuco; a escravidão dos índios durou até o século XVII, quando foi extinta pela Bula do Papa Urbano VIII, de 22 de abril de 1639.

Toda a economia açucareira veio a ser sustentada por braços cativos, introduzidos pelo colonizador com o beneplácito dos Reis de Castela e da Igreja Católica. Os escravos eram todos vistos como mouros e, como tais "infiéis", para os quais o Papa Eugênio IV autorizou o "direito" de cativar. Justificava a Igreja de então, através de seus teólogos, que sobre os africanos de todas as raças recaía o preceito bíblico que, descendendo de Cã, estariam condenados à escravidão; como acentua o padre Manuel da Nóbrega: Nasceram com este destino "que lhes veio por maldição de seus avós, porque estes cremos serem descendentes de Cã, filho de Noé, que descobriu as vergonhas de seu pai bêbado, e em maldição e por isso ficaram nus e têm outras mais misérias".11

Em 1570, calculava-se que viviam no Brasil entre 2000 e 3000 negros trabalhando na lavoura da cana-de-açúcar. O número de escravos cresceu assustadoramente, quando, segundo alguns autores, se constata no final do século XVI a importação de 30.000 negros da Guiné para servirem nas lavouras da Bahia e Pernambuco. No apogeu da produção do açúcar, no século XVII, foram importados cerca de 500.000 negros, em sua maior parte antes de 1640.

A escravidão do negro, na observação de Pedro Calmon, era só questão de começo:

Tudo era começar. Engenhos e tráfico. Canaviais e fabrico. Casas-grandes e escravidão. A partir dessa época [séc. XVI], muitos amadores se especializaram no negócio, as águas da Guiné e Angola se encheram de barcos tumbeiros e o Brasil teve os escravos que quis. Inundação deles. Grossa e ininterrupta imigração de pau e corda. Milhares ao ano, e em número crescente. Negros adultos e crianças; mulheres, para produzir, e homens invalidados cedo pelas atrozes moléstias do seu e do nosso clima. A nódoa que se alastrava. Horror da navegação negreira. Crime organizado, pela forma da pilhagem. Desumanidade inaudita, pela torpeza da viagem. Deslocamento metódico de populações. A passagem, para a América, das sobras da África apanhadas um tanto ao acaso, desde o Senegal até Moçambique, para o lucro do vendedor, príncipe da costa, empresa de portugueses, ou as próprias famílias dos escravos, para a fortuna do traficante, que espantosamente ganhava, para a lavra e a conquista do Brasil. 12

Era tanta a importância do trabalho escravo que o padre Antônio Vieira, em carta dirigida ao Marquês de Niza, datada de 12 de agosto de 1648, chega a afirmar:

Sem negros não há Pernambuco!

1 Pseudônimo do jesuíta João Antônio Andreoni, nascido na Itália (Luca) em 1650, iniciado na Companhia de Jesus em 20 de maio de 1667, logo depois é transferido para o Brasil, onde vem a ser reitor do Colégio da Bahia e Provincial do Brasil, tendo falecido em Salvador, em 13 de março de 1716, com a idade de 67 anos.

2 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001. p. 70.

3 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos Influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do norte do Brasil. Recife: FUNDAJ - Editora Massangana, 1987. p. 141-43.

4 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. Op. cit. p 169

5 MELLO, José Antônio Gonsalves.Tempo dos Flamengos. Op cit. p. 173.

6 ANTONIL; op. cit. P. 71

7 VIEIRA, Alberto. "A Madeira, a expansão e história da tecnologia do açúcar", in História e tecnologia do açúcar. Região Autônoma da Madeira: Centro de Estudos de História do Atlântico, 2000. p. 7.

8 GODINHO, Vitorino de Magalhães. Os descobrimentos e a economia mundial v. IV. Lisboa, 1981-83.

9 TINHORÃO, José Ramos. Os negros em Portugal Uma presença silenciosa. Lisboa: Ed. Caminho, 1988. p. 79-80.

10 Cristóbal Colón: Los cuatro viajes. Testamento. Madri: Ed. de Consuelo Varela, Alianza Editorial, 1986. p. 12.

11 NÓBREGA, Manuel da. Diário sobre a conversão do gentio, ed. do padre Serafim Leite, Lisboa 1954.

12 CALMON, Pedro. História do Brasil. Rio, 1979. v. II. p. 346.








 

 
 
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