Edição de Segunda-Feira, 22 de Setembro de 2003
 

Início Diario de Pernambuco Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos O Senhor-de-Engenho

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Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

O Senhor-de-Engenho

Era o engenho de açúcar, na descrição do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que entre 1629 e 1640 serviu como mercenário da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil, uma comunidade autônoma na qual se encontrava o necessário à vida com pouca dependência do mundo exterior:

Ali havia fundidores para preparar tachos, pedreiros para construir fornalhas, carpinas para fazer caixas, enquanto outros ocupavam-se de levantar capelas, pois cada engenho tem a sua, e ainda padre, barbeiro, ferreiro, sapateiro, carpinteiro, oleiro, alfaiate e outros artífices necessários".

Na sociedade de então, era o senhor-de-engenho a figura de maior destaque, verdadeiro senhor feudal transplantado da Europa e adaptado às condições dos trópicos, onde integrava a chamada nobreza da terra. Eram os da sua classe possuidores de privilégios, concedidos pelos reis de Portugal e Espanha, com tratamento especial dentro das Ordenações do Reino, como demonstra a carta da Câmara de Olinda dirigida ao conde João Maurício de Nassau em 1637.

Para Antonil,1 em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, livro clássico publicado em 1711, "ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo ser servido, obedecido e respeitado por muitos".

E se for, qual deve ser, homem de cabedal e governo, bem se pode estimar no Brasil o ser senhor-de-engenho quanto proporcionadamente se estimam os títulos entre os fidalgos do reino. Porque engenhos há na Bahia que dão ao senhor quatro mil pães de açúcar e outros pouco menos com açúcar obrigado à moenda, e cujo rendimento logram o engenho ao menos a metade, como de qualquer outra que nele livremente se mói, e em algumas partes ainda mais que a metade.2

O status de senhor-de-engenho veio a encantar até a holandeses recém-chegados, pois "o açúcar prometia fortunas". Assim sendo, logo após a rendição do Arraial do Bom Jesus (1635), vemos nomes ilustres do governo holandês e de alguns judeus de maiores posses na listas dos senhores-de-engenho: Jacob Stachouwer, Balthazar Wijntges, Servaas Carpentier, Willem Schott, Hendrik Schilt, todos eles conselheiros políticos; comandantes militares, como Sigismund von Schkoppe e Joris Garstman; comissário Willem Doncker; fiscal Nicolaas de Ridder; senhores Elbert Crispijns, Jacques Hack, Jan van Ool, Hans Willem Louissen; e alguns judeus Mozes Navarro, Eduard Saraiva, Vicente Rodrigues Vila Real e Diogo Dias Brandão.

Até predicantes calvinistas resolveram abandonar a "Messe do Senhor" em busca das riquezas da terra. Um deles, que se transformou em lavrador de canas, o pastor Daniel Schagen, veio a ser objeto das críticas do reverendo Vicente Soler; em vez de cultivar os campos do Senhor, deles retirando às ervas daninhas, cultivava as terras dos seus campos.

Um desses senhores tornou-se fundador de uma das famílias de Pernambuco, Gaspar van Niehof van der Ley. Adquiriu ele o engenho Algodoais, no Cabo, seguindo-se depois dos engenhos Utinga de Cima e Utinga de Baixo, então arruinados com a guerra. Seduzido pela terra, quase não se ausentava do seu engenho Algodoais e "raramente aparecia no Recife, onde, aliás, era pessoa acatada". Foi casado com uma pernambucana, filha da Manuel Gomes de Mello, senhor do engenho Trapiche e descendente do tronco da família dos Mello. Desse matrimônio, surgiu em Pernambuco a família Wanderley.

Outro holandês que criou raízes em Pernambuco foi o médico Servaas Carpentier (Aachen, 1599 Recife, 1646) que, apesar de figura de destaque no Conselho Político e membro influente do governo do Recife, abandonou tudo para dedicar-se à vida de senhor do engenho Três Paus, em Goiana. Obrigado a voltar ao Recife, pela insurreição de 1645, vem a falecer no ano seguinte, sendo sepultado na igreja do Corpo Santo.

Em meio da classe dos senhores-de-engenho surge o nome de uma mulher, Dona Ana Paes (1612-1678), que em 1630 era casada com o capitão Pedro Correia da Silva, morto quando da defesa do Forte São Jorge por ocasião da invasão. Viúva ainda jovem, Ana Paes veio novamente a casar com o capitão holandês Charles de Tourlon, oficial da guarda pessoal do conde de Nassau, continuando a residir em seu engenho em Casa Forte. Em 1643, acusado de crime de traição, foi Charles de Tourlon preso e remetido de volta à Holanda, tendo falecido na Zelândia em 18 de fevereiro de 1644. Novamente viúva, Ana Paes torna a casar como conselheiro Gisbert de With, do Conselho de Justiça, em companhia de quem se transfere para a Holanda e onde vem a falecer em 1672. Mulher instruída, dela se conhece uma carta endereçada ao Conde de Nassau, na qual oferece a dádiva de "seis caixas de açúcar branco"; cada caixa de açúcar pesava em média 20 arrobas, ou seja, 300 quilos. Divulgada pela primeira vez por José Higino Duarte Pereira, no n.º 30 da Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano (Recife, 1886), a carta em questão, devidamente traduzida para o português em uso nos nossos dias, teria o seguinte teor:

Ilmo. Snr. Como nós devemos toda a obediência a nossos superiores tanto mais a vossa excelência de quem temos recebido tantas honras e mercês, assim que este ânimo me faz tomar atrevimento de pedir a vossa excelência queira aceitar seis caixas de açúcar branco, perdoando-se vossa excelência o atrevimento (que meu ânimo é de servir a vossa excelência) e fico pedindo que Deus aumente a vida e estado de vossa excelência para amparo de suas cativas. De vossa excelência a muito obediente cativa Dona Ana Paes.

Um grande número de holandeses, senhores-de-engenho em particular, vieram a casar com mulheres da terra ou portuguesas, além de Gaspar van der Ley, aqui casaram Abraham Tapper, Joris Garstman, Johan Heck, Jan Wijnants; o mesmo acontecendo no Rio Grande do Norte e no Maranhão, como conta o padre Antônio Vieira. Um dos artigos da rendição de 1654.

Demonstra José Antônio Gonsalves de Mello, in Tempo dos Flamengos, que tais uniões eram tão freqüentes citando que o artigo 5º da versão holandesa do documento de capitulação, assinado em 26 de janeiro de 1654, "consentia aos vassalos dos ditos Senhores Estados Gerais casados com mulheres portuguesas ou nascidas na terra, que fossem tratados como se fossem casados com holandesas". Uma testemunha da época, procurador da Coroa e Fazenda Real, Antônio da Silva e Souza, assegura que "concedeu-se aos flamengos que quisessem ficar logrando suas fazendas as terão assim como as tinham de antes e como se foramportugueses, gozando de todos os privilégios que eles gozam".3 E não foram poucos os que ficaram, visto estarem unidos a mulheres da terra, com famílias e propriedades estabelecidas.








 

 
 
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