Edição de Quinta-Feira, 14 de Agosto de 2003
 
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Amarelo Manga é a cor dos excluídos

Ambientado no Recife, filme é uma crônica contundente e impactante sobre a periferia e seus personagens

Luciana Veras
Da equipe do DIARIO

A cor do transtorno, do desejo, dos rostos esvanecidos pela verminose que amolece o fígado, a cor da fruta de gosto imponente e caroço saboroso. Nas revistas semanais brasileiras, o tom concentrado escolhido por Cláudio Assis para intitular seu primeiro longa-metragem apareceu em descrições diversas, como se simbolizasse não só o enredo mas a força-motriz por trás dos personagens e os fios invisíveis que atam a cidade e suas paisagens urbanas em Amarelo Manga (Brasil, 2002), que estréia no Recife, em Fortaleza, em São Paulo e no Rio de Janeiro amanhã, sexta-feira 15 de agosto.

  Para o espectador local, ler dezenas de textos elogiosos e entusiasmados sobre algo que há dois anos lhe apareceu em filmagens no centro do Recife e em Olinda arremata o paradoxo: sediar filmagens, ceder equipe, fazer figuração, acompanhar a polêmica acerca da falta de financiamento e, no entanto, assistir por último ao filme premiado em Brasília, Berlim, Toulouse, Fortaleza e exibido em Tiradentes, Santo André, Curitiba e na residência oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (ver matéria na página C-2).

  Tal estranheza, contudo, cai diante do lançamento do filme. Impactante, contundente, incisivo e vibrante na fotografia em cinemascope de Walter Carvalho, na cenografia cuidadosa de Renata Pinheiro e nas atuações de um elenco que encarna personagens caricatos construídos pelo roteirista Hilton Lacerda com o exagero que possivelmente, fossem de carne e osso, temperaria suas vidas. Em tempos de Nordeste repintado em Eu Tu Eles e As Três Marias, de favelas cosmetizadas em Cidade de Deus e da lógica dos excluídos de Carandiru, Cláudio Assis fez um filme que trata da periferia sem retratá-la de cima para baixo.

  Nele, o necrófilo Isaac (Jonas Bloch) mora no Texas Hotel gerenciado por seu Bianor (Cosme Soares), habitado pela velha prostituta Aurora (Conceição Camarotti) e comandado de fato por Dunga (Matheus Nachtergaele), um cozinheiro homossexual que se joga, sempre que pode, para cima de Wellington (Chico Diaz), o açougueiro dividido entre a lascívia da amante Daisy (Magdale Alves) e o pudor religioso da esposa Kika (Dira Paes). Do outro lado, Lígia (Leona Cavalli) abre seu bar Avenida para mais um dia em que tudo, reclama ela, é igual ao outro, mais uma etapa de vida em que "só se ama errado".

  As convicções dessas pessoas impulsionadas pelo estômago e pelo sexo do qual fala o padre descrente interpretado por Jones Melo estampa-se em cada fotograma. Se eles vão, ao final daquele dia em que a história é narrada, alcançar seus objetivos torpes ou banais, não se sabe, ou melhor, só se descobre após o filme ter passado todo e aquelas caras, as fictícias e as documentais, colarem-se à retina da platéia, que, de imediato, as reconhece como vorazes, verdadeiras e verossímeis.

  Amarelo Manga é, de um lado, o manifesto de Cláudio Assis em busca de um cinema de baixo orçamento que mantenha o alto padrão estético (como se demonstra em planos concebidos com ousadia e executados com perfeição e na trilha sonora de Jorge Du Peixe e Lúcio Maia) sem perder de foco a urgência e o compromisso de, através da ficção, falar dos excluídos que também almejam o mesmo que os personagens de novela, de películas hollywoodianas ou romances franceses: amar e ser feliz.

  Do outro, surge como um filme nordestino e ambientado numa metrópole nordestina que não aprisiona suas personas em estereótipos ou rótulos reducionistas. Montado por Paulo Sacramento com uma precisão milimétrica e dono de cenas escatológicas, como o alívio obtido por Aurora com seu inalador, e seqüências que demandam do espectador mais do que atenção costumeira, como a do abate bovino, Amarelo Manga merece cada um dos encômios despejados pelos críticos e se impõe, vigoroso e perene. Até mesmo à revelia.

Serviço

Amarelo Manga (Brasil, 2002). Dir: Cláudio Assis. Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Leona Cavalli, Dira Paes, Chico Diaz.
Onde e quando: Nos Multiplex Recife 1 e Tacaruna 6, a partir de amanhã


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