Edição de Segunda-Feira, 11 de Agosto de 2003
 

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Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

Holandeses dominam Pernambuco - O Arraial do Bom Jesus

1635

Leonardo Dantas Silva
Especial para o DIARIO

Durante vinte quatros anos da ocupação holandesa no Nordeste do Brasil, a guerra foi sempre uma constante nodia-a-dia dos habitantes. Excluindo a ocupação de Salvador (1624-1625), a dominação holandesa no Nordeste pode ser dividida em três períodos distintos, como bem observou Evaldo Cabral de Mello: O primeiro, que vai de 1630, queda de Olinda, a 1637, quando as tropas do Rei Católico abandonam Pernambuco rumo à Bahia, corresponde a guerra de resistência, que se saldou com a afirmação do poder neerlandês sobre toda a região compreendida entre o Ceará e o São Francisco.

O segundo período, de 1637 a 1645, engloba principalmente o governo de João Maurício de Nassau (1636-1644), podendo ser prolongado até o ano seguinte, quando eclodiu o levante luso-brasileiro. É esta que constitui, para a historiografia, a idade de ouro do Brasil holandês. O período final, de junho de 1645 a janeiro de 1654, abrange a guerra da restauração, que terminou com a capitulação do Recife e das últimas praças-fortes inimigase com a liquidação definitiva da presença holandesa no Nordeste. 1

O Arraial do Bom Jesus

Na altura do n.º 3.259 da hoje Estrada do Arraial, em Casa Amarela, encontra-se o Sítio Trindade, que faz fundos com a Estrada do Encanamento, onde uma pequenina pirâmide de granito, ali colocada pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, em 29 de janeiro de 1922, assinala o local do Arraial Velho do Bom Jesus.

Naquele parque municipal, que hoje abriga inúmeros espécimes da nossa flora regional, o general Matias de Albuquerque, à frente de centenas de bravos pernambucanos, resistiu por cinco anos (1630-1635) às bem municiadas e numerosas tropas holandesas financiadas pela Companhia das Índias Ocidentais.

Era o Arraial do Bom Jesus, no dizer de Tadeu Rocha:

uma construção irregular e mal acabada, mas muito resistente. A natureza do terreno, o profundo fosso e os altos paredões deram-lhe o aspecto de uma fortaleza quase inexpugnável, sob cuja proteção foram abrigar-se muitas famílias, numerosos sacerdotes e diversos negociantes. Surgiu, assim, uma povoação eminentemente brasileira o Arraial do Bom Jesus onde Henrique Dias se apresentou com os seus pretos livres, em 14 de maio de 1633, completando o amálgama de brancos, índios, negros escravos e mestiços de toda ordem, já existentes no forte e no vizinho arraial. 2

Com a tomada do Recife pelos holandeses, o general Matias de Albuquerque iniciou a Guerra da Resistência recolhendo-se com seus bravos ao Arraial do Bom Jesus, que ocupava grande área daquele hoje populoso bairro do Recife, onde por cinco anos resistiu numa luta sem tréguas.

No dizer de Oliveira Lima, "com o desespero no coração, recolhia-se com alguns valentes companheiros, senhores de engenho da capitania, para um lugar na várzea [do Capibaribe] situado a uma légua do Recife e de Olinda, ponto por ele fortificado com quatro peças [canhões] e duzentos homens". Utilizando-se de táticas da guerra de guerrilha, os da terra puderam combater o invasor, obstando as comunicações, reduzindo suas forças, envolvendo-o "num apertado semicírculo, onde sentiam duramentea falta de madeiras e víveres frescos".

Ao Arraial do Bom Jesus compareceram com seus comandados Luís Barbalho e Martim Soares Moreno, Filipe Camarão com seus índios e Henrique Dias com os seus negros, resolutos em manter uma guerra diuturna que veio incutir na gente de Pernambuco o sentimento do nativismo.

No Recife, um conselho político da Companhia das Índias Ocidentais, formado por Pieter van Hagen, Johan de Bruyne, Servaas Carpentier e Johanes van Walbeeck, determinou que 7.000 homens comandados pelo general Jonkheer Diederick van Waerdenburch realizassem incursões contra os redutos portugueses na Paraíba (Cabedelo), no Rio Grande do Norte (Reis Magos) e no Cabo de Santo Agostinho (Nazaré), não tendo este sido feliz em suas tentativas.

Em abril de 1632, porém, a sorte parece sorrir para os holandeses: Domingos Fernandes Calabar, um mestiço acusado de contrabando, passa para o lado dos invasores. Profundo conhecedor da região, habituado à guerrilha, de logo desperta a atenção dos chefes holandeses que souberam apreciar-lhe as suas habilidades, dar-lhe um tratamento diferenciado na sociedade de então e recompensar-lhe os serviços. Com a sua ajuda foram tomadas as vilas de Igarassu (1632), Rio Formoso (1633), Itamaracá (1633), Rio Grande do Norte (1633) e Nazaré do Cabo (1634).

Em 1635, com a chegada de novos reforços, o efetivo militar da Companhia no Recife foi elevado para 4.000 infantes e 1.500 marinheiros, apoiados por 42 embarcações, sob o comando do general polonês Cristóvão Arcizewsky (1592-1656). Com tal reforço, o alto comando holandês vem conquistar finalmente as capitanias do Rio Grande do Norte, Paraíba e Itamaracá. As tropas portuguesas, por sua vez, ficaram restritas ao Arraial do Bom Jesus, ao Forte de Nazaré do Cabo e ao atual Estado das Alagoas, defendido em Sirinhaém por Matias de Albuquerque.

Era o coronel Christoffel dáArtischau Arciszewski um nobre polaco, aparentado da família principesca dos Radziwills, que quando jovem cometeu assassinato contra um advogado, que tentava apoderar-se da propriedade de sua família, e por isso fora banido indo se refugiar na Haia como correspondente político do seu tio. Aconselhado por Janus Radziwills, seu primo, vem ingressar na Universidade de Leiden, a fim de obter uma formação mais consistente e mais protestante do que na França. Aos 32 anos junta-se ao exército Conde de Nassau, embarcando cinco anos mais tarde, no posto de capitão, na frota do almirante Cornelis Lonck (1629) que vinha invadir Pernambuco. Na mesma frota veio encontrar-se com o oficial alemão Sigmund von Schkoppe, senhor de Krebsbergen e Grand Cotzen, "um soldado de bigodes vermelhos, muito rígido, que serviu aos interesses da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil por 24 anos, até a capitulação do Taborda".

Visto comsimpatia pelos seus comandados, era Arciszewski um competente militar, com paixão pelo latim e conhecimento dos clássicos, como testemunha o frei Manuel Calado. Sobre este religioso, cronista da guerra brasílica, escreveu aquele militar, tratar-se de "um papista português, um homem inteligente que goza de autoridade entre os habitantes e que gosta de falar latim".

Em 1637, por se indispor com o Conde João Maurício de Nassau, foi Arciszewski forçado a regressar às pressas para a Holanda e, em seguida, retornou a Polônia.








 

 
 
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