Edição de Segunda-Feira, 21 de Julho de 2003
 

Início Diario de Pernambuco Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos A Civilização do Açúcar

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Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

A Civilização do Açúcar

Com os seus engenhos espalhados pelas várzeas dos rios Capibaribe, Beberibe, Jaboatão e Una, a Capitania Duartina viu florescer a civilização do açúcar, fonte da riqueza responsável pela construção de todo um patrimônio artístico e cultural ainda hoje presente em suas fronteiras.

O engenho-de-açúcar foi, desde os primórdios da colonização, uma espécie de célula formadora da civilização que se implantou com a cultura do açúcar em terras brasileiras, como bem demonstra Gilberto Freyre:

O engenho-de-açúcar tornou-se a primeira base econômica e o persistente modelo de forma ou de configuração social de todo um vasto sistema de organização de economia e de família, de sociedade e de cultura, que das terras de cana-de-açúcar se comunicaria a outras terras e constituiria o fundamento da unidade unidade dinâmica daquela parte da América em que portugueses, com auxílio ameríndio e principalmente africano, desenvolveriam um tipo novo de civilização. [...] Mas as formas sociais que condicionariam esses outros ajustamentos regionais de substâncias, seriam as que primeiro se desenvolveriam naquelas terras as de cana-de-açúcar e em torno dos seus engenhos engenhos de animais, de rodas dáágua e a vapor: um sistema de relações dos homens com a natureza e dos homens entre si caracterizado pela preponderância da organização patriarcal de economia inclusive de trabalho: durante longo tempo, o escravo de família e de sociedade. 3

Observa Antonil, em seu livro clássico, verdadeiro manual para quem quisesse se estabelecer no Brasil como agricultor de cana-de-açúcar, existiam no Brasil dois tipos de engenho: o engenho real, para agricultores de grandes cabedais (posses) e as engenhocas, um tipo de fábrica de menor proporção, necessitando os primeiros de cerca de 150 a 200 escravos. O engenho real, tão bem representado em quadros e desenhos assinados por Frans Post, era movido a água e sua produção chegava a 4000 pães (formas) de açúcar, incluindo as canas moídas de sua propriedade e a dos lavradores sem engenho. Num só engenho real estariam reunidos os mais diferentes profissionais, todos indispensáveis para o sucesso do empreendimento.

Daí se fazer necessário: escravos de enxada e foice, no campo e na moenda; os mulatos, mulatas, negros e negras do serviço da casa ou em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carpinas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores; um mestre de açúcar, um banqueiro (seu substituto), um contrabanqueiro, um purgador, um caixeiro (no engenho e outro na cidade), feitores, um feitor-mor e o capelão.

Para o trabalho dessa gente se fazia necessário mantimentos e farda, medicamentos, enfermaria e enfermeiro, "e para isso são necessárias rocas de muitas mil covas de mandioca". Necessita ainda o engenho de barcos velame, cabos, cordas e breu; de fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha, e para isso faz-se mister dois barcos veleiros para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para a comprar, ou grandes matos com muitos carros e muitas juntas de bois para se trazer. Os canaviais necessitam também suas barcas e carros com suas juntas debois, enxadas e foices. As serrarias, de machados e serras. A moenda de toda a casta de paus de lei de sobressalente e muitos quintais de aço e de ferro. A carpintaria, de madeiras seletas e fortes para esteios, vigas, aspas e rodas, e pelo menos os instrumentos mais usuais, a saber serras, trados, verrumas, compassos, regras, escopos, enxós, goivas, machados, martelos, pregos e plainas. A fábrica do açúcar, de caldeiras, tachas e bacias e outros muitos instrumentos menores, todos de cobre, "cujo preço passe de oito mil cruzados, ainda quando se vende não tão caro como nos anos presentes".

E não param por aí as necessidades de um engenho real:

São finalmente necessárias, além das senzalas dos escravos e além das moradas do capelão, feitores, mestre, purgador, banqueiro e caixeiro, uma capela decente com seus ornamentos e todo o aparelho do altar, e umas cases para o senhor-de-engenho, com seu quarto separado para os hóspedes que no Brasil, desprovido totalmente de estalagens, são contínuos, e o edifico do engenho forte e espaçoso, com as mais oficinas, e casa de purgar, caixaria, alambique e outras coisas que por miúdas aqui se escusa apontá-las, e delas se falara em seu lugar. 4

O crescente aumento do número de engenhos em Pernambuco é confirmado pelas narrativas dos primeiros anos: 23 em 1570 (Gândavo), 66 em 1583 (Cardim) e 77 em 1608 (Campos Moreno). O preço da arroba do açúcar branco em Lisboa passou de 1$400 em 1570 para 2$020 em 1610 (Simonsen).

Tal riqueza já fora observada por Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, no qual relata possuir Pernambuco "mais de cem homens que têm até cinco mil cruzados de renda, e alguns até oito, dez mil cruzados".

Desta terra saíram muitos homens ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres, com os quais entram cada ano desta capitania quarenta e cinqüenta navios carregados de açúcar e pau-brasil, o qual é o mais fino que se acha em toda costa; e importa tanto este pau a Sua Majestade que o tem agora novamente arrendado por tempo de dez anos por vinte mil cruzados cada ano. E parece que será tão rica e tão poderosa, de onde saem tantos provimentos para estes reinos que se devia ter mais em conta a fortificação dela, e não consentir que esteja arriscada a um corsário a saquear e destruir, o que se pode atalhar com pouca despesa e menos trabalho. 5

Graças aos lucros obtidos com o açúcar, os de Pernambuco realizaram a colonização da Paraíba e do Rio Grande do Norte, estendendo sua conquista ao Ceará e ao Pará, sendo sua participação decisiva na incorporação do Maranhão ao território nacional. Foi um pernambucano, por sua participação no esforço da incorporação do Maranhão, cujo território era ocupado pelos franceses, que orgulhosamente acresceu este topônimo ao seu nome de família, prática que se estendeu por todos os seus descendentes. Refiro-me a Jerônimo de Albuquerque que, nascido em Olinda em 1548, filho do capitão Jerônimo de Albuquerque, cunhado do primeiro donatário, com D. Maria do Espírito Santo, índia da tribo dos Tabaiares, veio a conquistar o Maranhão aos franceses, então comandados pelo Monsieur de la Ravardière, Daniel de la Touche. Por assinatura do termo de capitulação, em 2 de novembro de 1615, ao apor o seu nome, Jerônimo de Albuquerque acrescentou o topônimo Maranhão.

Na qualidade de primeiro capitão-mor da Capitania do Maranhão, Jerônimo de Albuquerque Maranhão fixou-se na cidade de São Luís, aonde veio a falecer em 11 de fevereiro de 1618, passando seus descendentes a proclamar a sua glória com o apelido de Albuquerque Maranhão.

A agroindústria do açúcar veio modificar a paisagem pernambucana daqueles primeiros anos da colonização. O canavial, como se fosse um rio a transbordar do seu próprio leito, espalhou-se pelas várzeas, galgou as pequenas serras, derramou-se pelas encostas, encheu de verde-cana o horizonte, substituindo o verde da floresta tropical. Graças a essa nova ordem econômica, o açúcar passou de especiaria de alto luxo, vendido em boticas, para o alcance das classes de menor poder aquisitivo.

Inicialmente foram os engenhos das margens do rio Beberibe, Salvador e Nossa Senhora da Ajuda, cujos partidos de cana referia-se o primeiro donatário em sua carta de 1542.

Poucos anos depois os engenhos espalharam-se ao longo da costa, onde houvesse abundância de lenha, aproveitando os deltas dos rios, de modo a facilitar o transporte. Neles, sob a força do açúcar, o triângulo rural no qual se baseou toda uma civilização: casa-grande, engenho e capela.

Na toponímia local, os nomes desses engenhos são ainda hoje preservados, alguns com mais de 450 anos, o que levou o poeta Ascenso Ferreira assim cantar:

Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar!
Esperança!
Estrela d'Alva!
Flor do Bosque!
Bom Mirar!

O canavial, porém, expulsou a opulência da mata e de algumas das espécies nativas. Hoje só restam lembranças na toponímia local: São Lourenço da Mata, Nazaré da Mata e Santo Antão da Mata, numa referência às matas reais de pau-brasil. Aqui e acolá, sob o cocuruto de morro, ainda aparecem alguns resquícios de matas a relembrar a opulência dos tempos idos.

1 VARNHAGEN, F. A. História geral do Brasil, 9. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, t. 1. p. 106128.

2 OLIVEIRA LIMA, M. de. Op. cit. p. 11.

3 FREYRE, Gilberto. In Enciclopédia Barsa. v 2. Rio de Janeiro, 1980.p. 71-72

4 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001. p. 71-72.

5 SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. 9. ed. revista e atualizada. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: Ed. Massangana, 2000. p. 20








 

 
 
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